17.2.18

Como entrar em desacordo e argumentar de maneira intelectualmente honesta


Como entrar em desacordo e argumentar de maneira intelectualmente honesta

Como entrar em desacordo

A internet transformou a escrita em conversação. Há vinte anos, escritores escreviam e leitores liam. A internet permite que seus leitores respondam, e cada vez mais eles fazem em comentários em posts, fóruns e em seus próprios blogs. Muitos daqueles que respondem tem algo a discordar sobre o que leem. Isso já é esperado. Concordar com um texto motiva menos as pessoas do que discordar. Quando você concorda, há menos para se dizer. Você pode expandir o que o autor afirmou, mas talvez ele já explorou todas as implicações interessantes. Quando você entra em desacordo, você está entrando em um território que o autor ainda não explorou.

O resultado é que há muito mais divergências acontecendo, e você pode medir isso pelas palavras e respostas por aí. Isso não significa que as pessoas tem se tornado raivosas. A mudança estrutural na maneira de como nós nos comunicamos já é suficiente para explicar isso. Apesar de não ser a raiva que está causando um aumento nos número de desacordos, há o perigo de que o aumento no número de deles faça com que as pessoas se tornem mais raivosas e infelizes umas com as outras. Particularmente online, onde é fácil dizer coisas que você nunca diria cara a cara.

Se nós vamos entrar em desacordo mais vezes, então nós deveríamos tomar cuidado com isso. Muitos leitores conseguem saber a diferença entre xingamentos e uma refutação cuidadosamente construída, mas eu acho que ajudaria se colocássemos nomes para os estágios intermediários. Então tentaremos estabelecer uma hierarquia do desacordo.

0) Xingamento

Essa é a forma mais baixa de desacordo e provavelmente a mais comum. Todos nós já vimos comentários assim:

“vc é uma bicha!!!”

Mas é mais importante perceber que uma forma mais articulada de xingamento também tem o mesmo peso. Um comentário do tipo
“O autor é pedante e o artigo é horrivelmente construído.”

não é nada além de uma versão pretensiosa de “vc é uma bicha!!!”.

1) Ad Hominem

Um ataque ad hominem não é tão fraco quanto um simples xingamento. Ele pode conter algum peso. Por exemplo, se um senador escreve um artigo dizendo que os salários dos senadores deveriam ser aumentados, alguém poderia rebater:

“Claro que ele diz isso. Ele é um senador.”

Isso não refutaria o argumento do autor, mas pode pelo menos parecer relevante para este caso. No entanto, ainda é uma forma bem fraca de desacordo. Se há algo de errado com o argumento do senador em si, então você deveria dizer o que está errado; e se não há, então que diferença faz o fato de ele ser um senador?

Dizer que um autor não tem autoridade para escrever sobre um assunto é uma variante de ad hominem e particularmente uma variante inútil, pois as boas ideias geralmente vêm dos outsiders (aqueles que ainda são desconhecidos no meio). A questão é sobre o autor estar correto ou não. Se a sua falta de autoridade causou e fez com que ele cometa erros, então aponte-os. E se falta de autoridade não está ligada aos supostos erros, então ela é realmente irrelevante.

2) Respondendo ao tom

Nesse nível superior começamos a ver respostas ligadas diretamente ao conteúdo do texto, ao invés de serem ligadas ao autor. A forma mais inferior desse tipo de argumento é discordar do tom utilizado pelo autor no texto. Por exemplo:

“Eu não posso acreditar que o autor rebate o Design Inteligente de maneira tão arrogante.”

Apesar de ser melhor do que atacar o autor, esse ainda é uma forma fraca de divergir. É muito mais importante saber se o autor está certo ou errado do que apontar os dedos para o tom utilizado em seu escrito. Especialmente porque é difícil julgar um tom de maneira isenta. Alguém que está emocionalmente envolvido com determinado tema pode sentir-se ofendido por um determinado tom, enquanto o mesmo pode ter sido percebido como neutro por outros leitores.

Então, se a pior coisa que você pode dizer a respeito de algo é criticar o seu suposto tom, então você não está dizendo muito. O autor é rude, porém correto em seus argumentos? Melhor isso do que ser grosseiro e estar errado. E se o autor está errado em alguma afirmação, aponte onde está o erro e refute.

3) Contradição

É nesse estágio que nós finalmente encontramos respostas minimamente substanciais para o que foi dito, ao invés de respostas para como tais coisas foram ditas ou por quem elas foram ditas. A forma mais baixa de se responder à um argumento é simplesmente afirmar o oposto, contradizendo o autor, com nenhuma ou pouca evidência, através de um argumento falacioso ou simplesmente frágil.

Esse tipo de argumento é muitas vezes combinado com argumentos do tipo (2), de resposta ao tom:

“Eu não posso acreditar que o autor rebate o Design Inteligente de maneira tão arrogante. O Design Inteligente é sim uma teoria científica.”

A contradição pode ter algum peso. Às vezes, apenas contradizer e afirmar o oposto explicitamente pode ser suficiente para verificar-se que está correto. Na maioria dos casos, evidências e uma argumentação mais rica são necessárias.

4) Contra-argumento

No nível (4) encontramos a primeira forma de desacordo convincente: o contra-argumento. Até esse ponto, todas as formas anteriores podem ser ignoradas como irrelevantes e muito inferiores. O contra-argumento pode provar ou refutar algo. O problema é que pode ser difícil verificar o que um contra-argumento realmente prova.

Um contra-argumento é uma contradição expressa em conjunto de evidências confiáveis e argumentação lógica sólida. Quando direcionado diretamente contra o argumento original do autor, ele pode ser convincente. Mas infelizmente é comum encontrar contra-argumentos que estão atacando posições diferentes daquelas alçadas originalmente pelo autor. Nesse sentido, podemos dizer que um bom contra-argumento pode estar tentando atacar um “espantalho” do argumento original do autor criado conscientemente ou não e que é uma versão distorcida do argumento, geralmente fácil de ser rebatida. Muitas vezes, duas pessoas estão discutindo passionalmente sobre duas coisas completamente diferentes. Os indivíduos até concordam um com o outro, mas estão tão profundamente envolvidos no embate que acabam cegando para esse fato.

É possível que exista uma razão legítima para argumentar contra alguma coisa ligeiramente diferente daquela que sustentada originalmente pelo autor: quando você percebe que ele deixou escapar o âmago ou ponto central da questão. Mas quando você fizer isso, deve dizer explicitamente, de maneira textual e direta, que você percebeu que o autor errou por pouco o alvo.

5) Refutação

A maneira mais convincente divergir de seu proponente é a refutação. É também a mais rara, já que é a mais difícil. De fato, a hierarquia do desacordo forma uma espécie de pirâmide, no sentido de que as formas que se encontram no topo são as mais raras de se encontrar.

Para refutar alguém, é preciso que provavelmente você faça uma citação do argumento do mesmo. Você precisa ser capaz de achar uma “fumaça” ou “ponto fraco” em uma passagem do texto do autor que você percebe que está errada, e então explicar por que ela está errada. Se você não consegue encontrar uma passagem textual, de preferência clara e objetiva, então é possível que você esteja correndo o risco de estar argumentando contra um “espantalho” criado pela sua própria sede de encontrar uma falha nos argumentos do autor.

Mesmo que a refutação geralmente venha forma de criação de citações de passagens do texto do autor, o fato de estar citando passagens diretas do texto do autor não implica que uma refutação está realmente acontecendo. Algumas pessoas citam partes do texto que elas discordam apenas para dar a aparência de que estão prestando atenção nos argumentos, e de que estão produzindo uma refutação legítima, quando na verdade estão construindo uma resposta tão inferior quanto uma (3) contradição ou um (0) xingamento.

6) Refutando o ponto central.

A força de uma refutação depende daquilo que você refuta. A forma mais poderosa de desacordo é refutar o ponto central afirmado por alguém.

Muitas vezes, mesmo em níveis alto como (5), encontramos desonestidade intelectual deliberada, como por exemplo quando alguém refuta apenas os argumentos acessórios ou adjacentes ao argumento central proposto pelo autor que ainda se mantém forte em seu ponto central. A refutação do ponto central é tão forte e avassaladora que, na maioria das vezes, é percebida pelo público como um grande ad hominem ou como arrogância e abuso de intelectualidade por parte do refutador, ao invés de um argumento legítimo.

Para verdadeiramente refutar algo, é necessária uma refutação do ponto central ou pelo menos de alguns deles. E isso significa se comprometer em expressar textualmente, da maneira mais objetiva possível, qual é o ponto central que está sendo refutado no momento. Então, uma refutação verdadeiramente efetiva se parece com isso:

“O ponto central do autor parece ser x. Como ele mesmo diz:
Mas isso está errado por diversas razões, como por exemplo y e z…”

A citação apontada não precisa ser necessariamente uma afirmação textual exata àquela expressa originalmente pelo autor em seu ponto central. Algumas vezes, alguma citação que prove uma dependência essencial em relação ao ponto central já é suficiente.

O que isso tudo significa

Agora nós temos uma maneira ligeiramente informal de classificar formas de desacordo. Qual o benefício disso? Uma coisa que a hierarquia do desacordo não nos dá é uma maneira de escolher um argumento vencedor. Os níveis apenas descrevem o formato dos argumentos e não se eles são corretos. Uma resposta (6) de refutação do ponto central, ainda que sólida, pode estar completamente errada.

Mesmo que os níveis de desacordo não estremem um limite inferior sobre o grau de convencimento de respostas e replicas em uma discussão, eles acabam sim delimitando um limite superior. Uma resposta (6) de refutação do ponto central pode não ser convincente, mas uma (2) de resposta ao tom do texto do autor é sempre fraca e inconvincente.

A vantagem mais óbvia de se classificar formas de entrar em divergência é que isso pode ajudar as pessoas a avaliar o que elas estão lendo. Em particular, vai ajudar elas a identificar argumentos intelectualmente desonestos. Um orador eloquente ou escritor pode causar a impressão de estar subjugando oponentes apenas por estar usando palavras de impacto. De fato, essa é a qualidade dos demagogos. Ao dar nomes para as diferentes formas de entrar em desacordo, damos aos leitores um alfinete para estourar tais balões argumentativos.

Tais rótulos podem ajudar os escritores também. A maioria das desonestidades intelectuais são não-intencionais, muitas vezes irracionais e inconscientes. Alguém que está argumentando contra o tom empregado pelo autor em um texto pode realmente acreditar que o texto está falando algo válido. Dar um passo para trás e ver a figura de longe pode inspirá-lo a tentar mover as suas respostas para o status de (4) contra-argumento ou (5) refutação.

Mas o grande benefício de entrar em desacordo de maneira racional e inteligente não é que isso pode fazer com que as nossas conversas fiquem melhores, mas fazer com que as pessoas envolvidas nelas tornem-se mais felizes. Se você estudar as conversas, perceberá que os argumento próximos de (1) contém muita mesquinhez e maldade. Para destruir um argumento você não precisa destruir o oponente. De fato, você não quer. Se você se concentrar em subir a hierarquia da pirâmide do desacordo, farás com que a maioria das pessoas tornem-se felizes. A maioria das pessoas não gosta de mesquinhez; elas só fazem isso porque se envolvem emocionalmente.

*Paul Graham, Ph.D. em Ciência da Computação pela Havard University e B.A. em Filosofia pela Cornell University, empreendedor do Vale do Silício e famoso pelo seu trabalho na linguagem de programação Lisp (autor de ‘On Lisp’ e ‘ANSI Common Lisp’).
Via: Bule Voador


26.11.17

TECNOLOGIA E TEOLOGIA, DE GUTEMBERG A ZUCKERBERG


TECNOLOGIA E TEOLOGIA,
de Gutemberg a Zuckerberg

Tudo foi criado por ele e para ele.
Colossenses 1:16

A tecnologia, o trabalho e o domínio do homem sobre a natureza, estão interconectados; o domínio e o trabalho geram inevitavelmente tecnologias desde os primórdios. O domínio humano por meio do trabalho sob Deus é uma grande benção, promove potencialidades da vida, energia social construtiva, material e espiritual. Em Gênesis, no relato inicial da criação, no primeiro capítulo, versículo 28, destaca-se que Criador deu ao homem o poder de “sujeitar e dominar” sobre a terra. Assim nasceu a capacidade da escrita como tecnologia da comunicação e todas as outras potencialidades tecnológicas, até hoje, usadas para o bem ou para o mal.

Este “domínio” bíblico transcorre todas as gerações humanas sobre a terra e sedimenta a cosmovisão teísta sobre o trabalho. O avanço tecnológico é uma consequência do trabalho e do domínio humano.

No desenrolar do processo das reformas do século XVI, há um destaque para a tecnologia da comunicação ou da informação, através da prensa tipográfica e da libertação religiosa imposta pelo jugo papal sobre o século XVI (e pela estrutura Medieval), especialmente a partir de Martinho Lutero. O reformador alemão e outros reformadores, especialmente João Calvino, são atribuídos importantes contribuições ao nosso mundo ocidental de hoje, contribuições das mais diversas; ideias impulsionadas pelo poder do compartilhamento dos textos impressos.

A Reforma inicialmente não trouxe alguns benefícios imediatos como conhecemos hoje, mas contribuiu para a geração de valores de nossos tempos, como por exemplo, a liberdade de expressão, abertura de debates e diálogos religiosos e acadêmicos, novas ideias, resgates de ideias antigas, questionamentos sobre ensinos, ciências, cosmovisões em choques, surgimento de universidades protestantes, as quais deram inícios a novas ciências. As reformas protestantes encapsularam muitos dos valores que temos hoje. Progressos tecnológicos não são exclusividades da influência protestante, mas consequências do domínio humano sobre a natureza, porém alguns períodos se destacam como curvas ascendentes em gráficos. E certamente o legado do período protestante contribui grandemente para o formato do Ocidente, hoje.

Lutero, Calvino e outros reformadores desafiaram governos e poderes hostis, e abriram caminho para a democracia que conhecemos hoje. Os protestantes ora apoiavam, ora derrubavam monarquias, e lançaram novas bases para a futura democracia moderna, diferentemente da democracia grega, esta mais elitista.

O princípio da separação da influência estatal sobre a Igreja é uma herança protestante. Um dos legados mais famosos e distorcidos atribuído ao protestantismo foi o capitalismo, através da popularmente difundida “ética protestante do trabalho”, que contribuiu para a formação da economia moderna. O capitalismo inglês, holandês, enfim Europeu e dos EUA, moldou a economia mundial como temos hoje. -- A antiga Genebra de Calvino não era um paraíso democrático, mas é fato que aí nasceu a semente da democracia moderna, a liberdade da América deve muito aos pioneiros colonizadores protestantes calvinistas.

Efeitos econômicos e acadêmicos associados trouxeram inevitavelmente resultados tecnológicos e novas ideias nos mais diversos campos da sociedade Ocidental. Há contribuição protestante ao mundo nas áreas acadêmicas, politicas, sociais e culturais. O campo educacional, por exemplo, é bem marcante que o protestantismo rompeu com a educação medieval, a qual o acesso era para uma minoria rica. A Genebra protestante dos tempos de Calvino é uma precursora da educação pública moderna, os avanços culturais e políticos derivados são inestimáveis.

O poder de publicar ideias derivado das reformas que sucederam a Reforma Protestante somado à tecnologia da imprensa do século XVI ofereceu um avanço singular para a história humana. A Reforma iniciada por Lutero é um ponto convergente que lançou as bases para outras reformas. A produção literária em escala crescente após a invenção da prensa tipográfica nesses 500 anos, a abundância de pesquisas, ferramentas e tecnologias, são crescentes a cada geração. De Gutemberg a Zuckerberg, a tecnologia da informação deu grandes saltos e atualmente estamos vivendo uma era de armazenamentos em chips, fluxo de dados monstruosos e arquitetura de nuvens. Para onde nos levará esta transformação digital?

O problema da antibiblioteca

O primeiro problema que se apresenta em nosso século é filtrar o imenso volume de informação disponível, -- que um escritor da atualidade chamou de “antibiblioteca”. Este termo é usado por Nassim Taleb, que narra uma ilustração muito interessante sobre a biblioteca de Umberto Eco. É conhecido no meio acadêmico que o escritor italiano Umberto Eco tem uma biblioteca de cerca de 30 mil livros, e conta Nassim Taleb, que os visitantes da biblioteca do Umberto Eco são divididos em duas categorias: Os que reagem com “UAU! que biblioteca é esta?! Quantos livros desses o senhor já leu?” -- E outros, que entendem que uma biblioteca não é um prolongamento para elevar o próprio ego, e sim uma ferramenta de pesquisa. O Nassim Taleb é muito perceptivo nesta ilustração sobre a biblioteca do Umberto Eco, e diz: “Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca”.

Na revista Época, em entrevista em 30/12/2011, o Umberto Eco diz que "o excesso de informação provoca amnesia", ele diz que a Internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, porque ela não filtra o conhecimento e congestiona a memória. Ainda segundo Eco, "a internet não seleciona informação... é um mundo selvagem e perigoso... A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. Conhecer é cortar, é selecionar”.

Sem dúvida o conhecimento está se tornando mais acessível via computadores e Internet. A alta conectividade fez o mundo se transformar numa grande cidade de regiões interligadas, estamos todos integrados através de várias mídias. As maiores universidade do mundo estão oferecendo acesso aos seus bancos de dados, isto por si só é algo extraordinário. Porém juntamente com esta maravilha, há um estrondoso volume de ruídos, de conteúdos irrelevantes, distrações e Fake News. Temos excessos de informações boas e ruins. O bom conhecimento está espalhado como garrafas de mensagens em meio à poluição marinha.

Tecnologia para o Reino de Cristo

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém. (Romanos 11.36). -- Todas as coisas procedem de Deus, todas as coisas são feitas ou forjadas por Ele, e todas as coisas existem para a Sua glória e para realizar os Seus fins. A tecnologia ficaria de fora?

O mundo contemporâneo é complexo em conflitos crescentes, e sem dúvida, bons conteúdos em informação são ferramentas excelentes, podemos examinar melhor o passado e projetar melhores estratégias para o futuro. Precisamos reavaliar as bases que foram lançadas (ao longo da história da Igreja), e ampliar uma visão de missões, de Reino e avançar em justiça e misericórdia, precisamos resgatar a pregação do pecado, do arrependimento e da salvação, como antigos profetas e reformadores. Não precisamos de grandes reformas, mas de muitas pequenas reformas. Precisamos reformar nosso conforto, comodismo, nosso consumismo, nosso trabalho, nosso bolso, nossa mão fechada que não se estende aos pobres, necessitados, vulneráveis, oprimidos e marginalizados. Reformar a visão de missão e de Reino, e avançar; fortalecer a Igreja financeiramente para que suas agências missionárias funcionem com menos penúria. Temos bibliotecas suficientes para encher muitos estádios de futebol, precisamos colocar em prática todas as coisas boas e úteis em ação. – “Examinai tudo. Retende o bem”. (1 Tessalonicenses 5.21). Coloquemos tudo à prova, como um ourives que submete o metal ao fogo. Devemos rejeitar tudo que é falso. Deus deu a sua Igreja o discernimento da verdade. -- ...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. (Filipenses 4.8).

Em meio a tanta informação disponível precisamos de três coisas: Saber filtrar (discernir), compartilhar e impulsionar. Este é o desafio missionário do século 21.

Desafio missionário

Se formos compactar a linha do tempo desses últimos 500 anos de produção teológica de qualidade, teremos como resultado uma excelente mega biblioteca para equipar um exército de missionários cristãos. Mas onde estão estes missionários? Não exatamente os missionários transculturais, que são em menor número, mas os missionários do cotidiano, das famílias, dos ambientes de trabalho, acadêmico, das igrejas locais, de leigos? A Igreja nunca foi estática, mas dinâmica. Jesus e os apóstolos e discípulos eram a própria Igreja em movimento. Aspiramos os Céus, porém não podemos ser meramente contemplativos.

Precisamos reformar a nossa adoração para que ela não seja simplesmente contemplativa mas ativa, cheia de ação no mundo real, que ao adorarmos não possamos esquecer de fugir das injustiças e impiedades. Independentemente de pontos de vistas teológicos diversos, precisamos rever o passado e não repetir seus erros. Há muitos erros no passado que devemos não esconder, mas aprender. Erros da Igreja e cristãos individualmente, temos uma tendência de tentar evitar as biografias negativas de nossos “heróis”, mas Deus não faz isto em sua Palavra, ele mostra a fidelidade de homens como Abraão, Moisés, Davi e outros, mas também mostra e expõe suas fraquezas.

Na Reforma e reformas posteriores, temos disputas de poderes religiosos e políticos, guerras, ódios e outros aspectos negativos. Após a Reforma de 1517 temos cerca de 200 anos de guerras religiosas. Teólogos e evangelistas protestantes, que trouxeram valiosas contribuições para teologia cristã, em suas épocas apoiavam a escravidão. Os calvinistas holandeses no Caribe praticaram opressão escravagista no passado. Devemos desconstruir a história para torná-la mais positiva e palatável? Não! Devemos aprender com nossos erros e buscar redenção dos fracassos. A cada geração Deus oferece oportunidades para expansão do Seu Reino.

A grande luta dos 500 anos para frente não é produzir mais teologia, embora ela continuará sendo produzida, mas lutar contra as inconsistências que acompanham os movimentos evangélicos desde sempre; a batalha é não comprometer a pureza doutrinária com uma vida antiética. Nossa árvore está gigante, mas precisamos dar frutos de arrependimento em nossa geração. -- Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus? (Miquéias 6.8). Amar a Deus não de palavra, praticar a misericórdia e justiça. -- Misericórdia quero, e não sacrifício. Porque eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores, ao arrependimento. (Mateus 9:13).

Deus quer filhos missionários, e não pessoas como num piquenique prolongado, como escreveu Ronald J. Sider: “Para os primeiros cristãos, koinonia não era a "comunhão" enfeitada de passeios quinzenais patrocinados pela igreja. Não era chá, biscoitos e conversas sofisticadas no salão social depois do sermão. Era um compartilhar incondicional de suas vidas com os outros membros do corpo de Cristo”. Nossa comunhão está fraca em pleno século da alta conectividade, como reverter este quadro?

Estratégias missionárias

Nada conseguiu parar a Reforma do século XVI e as reformas posteriores por causa do compartilhamento de informação. Agora, 5oo anos depois estamos diante de outro salto em informação, na era dos chips e bytes infinitos. Podemos ouvir uma pregação, um estudo, um louvor, em tempo real ou no tempo que quisermos em casa e em qualquer lugar, e na palma da mão podemos ter uma biblioteca imensa. Temos condições de nos conectar por vídeo com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta, e isto é algo maior que a revolução da prensa tipográfica. Se há 500 anos era possível pregar sobre a graça de Deus e somente a fé em Cristo, e compartilhar o Evangelho além-mar, hoje muito mais.

O rabino Jonathan Sacks, escreveu ao The Washington Post (30/10/2017), que os jihadistas estão sabendo explorar mais as ferramentas digitais e internet do que qualquer outro grupo religioso, embora estejam usando para o mal, espalhando o medo e o terror global, como tem feito o ISIS. E que o cristianismo tem feito com a alta conectividade virtual?

Precisamos reformar o foco das missões cristãs, e não perder tempo com ódios banais de Internet, fofocas e fake news. O futuro não é amanhã, é hoje. Não precisamos de uma mirabolante estratégia missionária ou de grandes missionários, mas compreender a Grande Comissão dada pelo Senhor Jesus Cristo, e a partir dela coordenar todos os recursos que temos disponíveis, sejam financeiros, organizacional, obreiros etc.

Precisamos em meio ao caos e ruído de informações retornar à simplicidade do Evangelho do Senhor Jesus Cristo, estamos em alta conectividade, mas não unidos; devemos trabalhar por uma unidade mínima e razoável para uma boa convivência com a cristandade. E com isso compartilhar o Evangelho livremente. Devemos voltar para as bases da reforma; precisamos colocar Cristo no centro de toda nossa comunicação, começando em casa e na igreja.

A tecnologia da informação muda o mundo, a tecnologia de comunicação disponível hoje é uma ferramenta de benção para o crescimento do Reino do Senhor Jesus Cristo. Façamos dela benção para muitos outros. Filtrar, compartilhar e impulsionar através de diversas mídias e ações.

Temos uma grande necessidade de evangelismo hoje, qual o seu ministério? Como você pode servir melhor ao reino de Deus? Como você pode fazer diferença neste mundo em sua geração? Lembremo-nos sempre das palavras do Senhor: “Se me amais, guardais os meus mandamentos”. Jo 14.15. – “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele”. Jo 14.21. O mesmo Senhor que ordenou: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Mateus 28.19. – Evangelizar é ir, avançar, conquistar em nome do Senhor Jesus Cristo. Ele venceu o mundo e toda autoridade é dele.

Raniere Menezes
Frases Protestantes

(Texto sem revisão – atualizado em 26/11/2017)

30.9.17

LUTERO, NEM MONGE NEM EXECUTIVO


LUTERO, NEM MONGE NEM EXECUTIVO


O legado de Lutero está acima de Lutero e de luteranos? Nesses 500 anos da Reforma muitos querem ter o selo da franquia de Lutero. Luteranos “patentearam” um Lutero liberal e o canonizaram deste modo. Os romanistas fizeram um eficaz trabalho de difamação na contrarreforma (uma franquia reversa) – “contrarreforma, sempre contrarreformando”, e o demonizaram desta forma. Não adianta dar formas a Lutero, se ele era beberrão, boca suja e pervertido, seu legado está acima dos rótulos. Acima de Lutero, dos reformadores e dos homens há o SENHOR da história, Aquele que move a linha do tempo e preserva Sua Igreja; Aquele que tem o cetro de ferro real e despedaça todos os inimigos.


Depois que se é picado pelo protestantismo reformado (redundância necessária, hoje) nunca mais se é o mesmo. O protestantismo no sangue é algo mais que Lutero, Calvino, Knox, Owen, Zuínglio, outros personagens e assembleias. Deus levanta mestres na Igreja não para que sejam canonizados e virem ídolos de altares, mas para revelar Seu tesouro à Igreja. A palavra bíblica dos credos, catecismos, confissões e comentários são esculpidas com sangue sobre a rocha. Os 500 anos da Reforma não é para dar os parabéns a Lutero nem aos luteranos, mas para dar GLÓRIA SOMENTE A DEUS, pela preservação da verdade contra os ataques dos inimigos.


Lutero e outros personagens da história da Igreja são apenas instrumentos trabalhados pelo Espírito Santo para edificação da Igreja e para a Glória de Deus. Seguimos as antigas veredas trilhadas por homens de Deus, e o seguimos até onde Deus nos dá entendimento da fidelidade bíblica de seus ensinos, caminhamos de mãos dadas com eles enquanto eles honram as antigas doutrinas da graça de Cristo. O que Deus quis revelar a sua Igreja ao longo da história das doutrinas prevalece sobre as gerações, não serão falácias ad hominem que destruirão a verdade, esteja ela onde estiver. Que todos os professores de história do mundo trabalhem na desconstrução de uma personalidade. É Deus quem preserva sua verdade através de escritos sobre firme fundamento.


Por mais que alguém tente colocar os reformadores do século XVI dentro de um baú mofado com um grosso cadeado enferrujado, eles não podem ser contidos ao século XVI somente, os reformadores voltaram às fontes e mineraram tesouros dos séculos anteriores retornando aos Pais da Igreja, aos concílios importantes e aos textos da língua original das Escrituras. E ao longo desses 500 anos da Reforma para cá, temos uma rica herança confessional que fora lapidada como um diamante em cada geração da Igreja temporal. Por mais que passemos por períodos de trevas densas do mundanismo, liberalismo e outros ismos, a luz da verdade nunca deixa de brilhar.

Raniere Menezes
Frases Protestantes


25.6.17

MALDITO SEJA O HOMEM – Jeremias 17.5


MALDITO SEJA O HOMEM – Jeremias 17.5

Palavras fortes. O mal se corta pela raiz, e Deus nos deu sua verdade para combater o bom combate, e um dos nossos maiores inimigos é o nosso coração, perversamente enganoso. Ele nos faz confiar em si mesmo, erro número 1, e nos faz confiar em alianças externas.

Jeremias quando proferiu esta palavra estava condenando o povo hebreu por confiar em alianças egípcias e outras, e por não confiar em Deus somente.

Maldito o homem que confia no homem não significa não confiar em ninguém, pois seria impossível viver em paz com o próximo, mas significa colocar a confiança na sabedoria ou no poder ou na bondade ou na fidelidade humana, em detrimento da Sabedoria, Poder, Bondade e Fidelidade de Deus.

Aquele que conhece o coração humano como revelado por Deus, sabe que não pode confiar plenamente nem no próprio coração, que dirá do coração do próximo. O coração enganoso chama bem de mal, e mal de bem.

Nós somos falhos, imperfeitos, infiéis, inconstantes, maus e fracos. Todo bem deriva da graça de Deus em nós. Somos miseráveis pecadores sem a graça santificadora e perdoadora.

Não diga: "Eu sigo o meu coração!", como tantos dizem. O coração é o pior conselheiro que podemos ter. Podemos, sim, seguir o Conselho da Palavra e guardá-la em nosso coração. Não se apoie em uma bengala quebrada, ela não te ajudará.

Os judeus aprenderam na pele como é terrível colocar a sua confiança em aliados. No tempo de Jeremias eles confiavam na mão "amiga" dos egípcios quando ameaçados pelos caldeus. Só que essa "mão" ou braço "poderoso" era apenas de carne, fraca e corruptível.

Não devemos confiar ajuda de um simples mortal, por mais aparência de poder que tenha. Somente Deus é Todo-Poderoso e Imortal.

Mas perceba a sutileza do pecado. Muitas vezes o nosso coração enganoso confia no poder humano, e ao mesmo tempo com os lábios honra a Deus, mas o coração não está em comunhão com Deus, honra Deus com a boca, mas o coração permanece distante. Jeremias disse ao seu povo, e serve para nós, que tal atitude é como uma planta estéril do deserto, infrutífera.

Esta analogia também se aplica a quem confia em sua própria justiça, força, mérito, riquezas e obras. Tais pessoas menosprezam a graça de Cristo. Aquele que confia em si mesmo ou deposita sua confiança em mortais, é como um arbusto no deserto, inútil e sem valor.

O contrário dessa figura estéril é do homem que faz Deus sua esperança, este dará frutos como uma árvore sempre verde, cuja folha não murcha, dará frutos em santidade e boas obras.

Nunca esqueça que o nosso coração é enganador, há nele uma guerra santa, do Espírito Santo contra a carne. Quando nosso corpo for glorificado não haverá mais pecados, mas enquanto isso é guerra.

Não se iluda, não podemos conhecer nem o nosso coração, muito menos o coração dos ouros. Não deposite sua confiança em idólatras, perversos. Confiar é abraçar a maldição proferida por Deus:  Maldito o homem ...amaldiçoado seja o homem que confia no homem.

Podemos esperar ajuda das pessoas? Sim, na medida em que Deus permitiu nos ajudar, mas devemos descansar a nossa confiança somente em Deus. Cf. Sl 62. E sempre peça sabedoria e discernimento a Deus para reconhecer o que é de Sua mão, sem duvidar.

Cristo é o Deus Vivo e Verdadeiro, confie nele. Confie em que aponta para Ele, assim como fez os patriarcas, profetas, apóstolos, discípulos e mestres vocacionados por Cristo.

O homem é apenas carne e fraqueza, mas quando neste vaso frágil habita a Palavra de Deus ouça e confie na voz do Senhor, onde ela estiver. O antigo povo de Deus podia confiar em Moisés e Arão porque eles eram fieis mensageiros, não porque possuíam o poder meramente humano. A Igreja Primitiva confiou em Paulo, apesar de não confiar em Saulo. Quando Deus fala temos que dizer amém.

Confie em Deus em qualquer circunstância, boa ou ruim. Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam. Não seja incrédulo, mas confia.

Não confie em políticas mundanas, em salvadores da pátria, em amizades poderosas, são humanos corruptíveis, e só Deus é ETERNO E IMUTÁVEL.

Não deposite sua confiança em pessoas, não seja idólatra. Ouça a voz de Deus e siga o Caminho.


R.M.MENEZES

17.6.17

O Corpo de Cristo na Missa e na Perspectiva Protestante


Esta ilustração te incomoda? Pois deveria te incomodar também no material de EBD que oferecem às crianças.

Os Católicos Romanos são coerentes em usar imagens de Cristo e até elaborar que Jesus seja mastigado e bebido, como carne humana real e sangue real. Mas os protestantes deveriam evitar a normalidade do uso de imagens, pois toda imagem é uma tentativa de elaborar a presença material de Cristo, o que não é bíblico.

Sempre o uso de simulacro da imagem de Cristo será um erro e pecado!

O Romanismo sempre tentará "materializar" Cristo, seja em imagens, seja em hóstia.

E muitos evangélicos, quando deveriam abandonar o uso de imagens não fazem.

O Catolicismo Romano é coerente com a tradição deles, e é legítimo para eles usarem imagens. Para eles as imagens fazem parte de sua teologia.

Quando um padre consagra a substância do pão e do vinho, para ele (e para os fiéis) o vinho é transformado em sangue real de Cristo e o pão em seu corpo, ou seja a divindade de Cristo está supostamente presente de forma integral. Esta é a doutrina da TRANSUBSTANCIAÇÃO.

Esta doutrina ensina que Jesus Cristo está físico e espiritualmente presentes no pão e no vinho.

Entre as linhas evangélicas protestantes, Cristo na Ceia (e não na missa) está presente espiritualmente e/ou simbolicamente.

A Pessoa de Jesus Cristo não se transforma em líquido e trigo por causa de um ritual. O apóstolo Paulo disse que o pão permanece pão em 1Co 11.27-28.

A missa ritual alega transformar vinho em sangue, caso se transformasse em sangue, a Bíblia condena beber sangue, em Lv 3.17, 7.26, 17.10,12.

O ato da missa de "comer" o corpo de Cristo (Cristo sendo Deus e homem, as duas naturezas em uma só) por si só é uma heresia. A natureza humana de Cristo não pode está ao mesmo tempo no Japão e na Itália. A onipresença espiritual de Cristo, sim! Ela pode estar em todo o universo criado, mas seu corpo não.

A mistura das naturezas divina e humana de Cristo em uma só natureza é uma heresia chamada Apolinarismo, a qual já foi condenada pela igreja romana repetida vezes ao longo da história.

Você sabia que quando o padre consagra a hóstia (que não é pão) ela é adorada como sendo Deus? Se não há transformação química de trigo para carne, muito menos a presença física da humanidade de Cristo, o culto é uma adoração de fetiche e idolatria.

A ICAR afirma que a missa é um sacrifício idêntico ao sacrifício da cruz de Cristo. A diferença é que não "sangra" na cruz mas no altar. Estranho...

Biblicamente podemos repetir o sacrifício de Cristo? NUNCA. Em Hebreus 9.12 diz que Cristo foi sacrificado DE UMA VEZ POR TODAS. Só há UM ÚNICO SACRIFÍCIO, está em Hebreus 10.12. CRISTO MORREU DE UMA VEZ POR TODAS, está em Romanos 6.9-10.

Quantas missas foram realizadas hoje? E Cristo foi sacrificado quantas vezes? Cristo disse que era uma PORTA. Quantas vezes fizemos um ritual entrando por uma porta como se Cristo se transformasse realmente na porta? Claro que a porta é uma linguagem simbólica. E o pão e o vinho?

RM

28.5.17

A velhice não ajuda contra a estupidez


A velhice não ajuda contra a estupidez

Por R.M. Menezes

A frase do título é atribuída a Lutero. A velhice pode ser algo positivo quando se adquire sabedoria da Palavra de Deus, mas longe da Palavra os cabelos brancos e a pele enrugada não significam nada. Alguém já disse que os canalhas também envelhecem. Alguns velhos são tarados desprezíveis. Em geral são frágeis e dependentes... outros são sábios segundo o mundo e outros são agraciados por Deus com a sabedoria das Escrituras. Esta experiência é louvável. Mas que ninguém se engane, a sabedoria, o discernimento, o conhecimento da Palavra não tem idade.

Compreendendo, meditando e praticando a Palavra de Deus entendemos mais do que os nossos professores. O dom da graça, do arrependimento, do perdão, do agradecimento e contentamento podem alcançar uma criança e envergonhar um adulto. Não há idade para conhecer Deus, ter prazer em Deus, em sua Palavra.

Por que Davi escreveu que sabia mais que seus professores e os mais velhos? Via de regra, pelo senso comum, os mais velhos tem certa vantagem em experiência, estudo e observação. Cicatrizes e rugas são linhas de memórias proveitosas para alguns. Como disse Jó: “Com os idosos está a sabedoria, e na longevidade o entendimento”. (Jó 12:12).

No entanto o praticante da Palavra terá maior sabedoria, pois guarda os mandamentos de Deus, independente da idade. -- Ninguém despreze a tua mocidade; mas sê o exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza. (1 Timóteo 4:12). – A juventude sem a sabedoria da Palavra também é tão inútil quanto a velhice sem o conhecimento de Deus. Mas não um conhecimento vazio, mas com temor.

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre. (Sl 11.10).

Nosso esforço, pela graça, é fazer a vontade de Deus, não é apenas o conhecimento intelectual mas a prática. Esta verdade derruba muitos velhos e jovens. -- Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. (Jo 7.17).

Além do mais se formos comparar o conhecimento bíblico dos antigos e depois dos apóstolos, percorrendo toda história da Igreja, nos temos em mãos maiores descobertas do Messias, sua Pessoa e seus ofícios. Ao longo da história, das gerações eleitas, Deus levantou seus mestres para cuidar da Sua Igreja e zelar por seu glorioso nome.

Por mais que possamos encher uma biblioteca do tamanho de uma cidade somente com livros sobre Cristo, o conhecimento pleno e verdadeiro não se pode medir, não se pode estocar, mas quando praticado, vivido na pele, um jovem pode superar um mais velho (e que isto não seja motivo de orgulho e vanglória).

Jovem, mantenha a Palavra de Deus sempre por perto, na leitura, na meditação, na memória, no coração. Ouça a voz do Espírito Santo em Jó 32.7-9:
Dizia eu: Falem os dias, e a multidão dos anos ensine a sabedoria.
Na verdade, há um espírito no homem, e a inspiração do Todo Poderoso o faz entendido.
Os grandes não são os sábios, nem os velhos entendem o que é direito.

O Salmista Davi compreendeu mais do que os antigos, Deus revelou ao seu servo a sabedoria oculta que estava em sua lei, Davi falou mais plenamente sobre Cristo do que qualquer um antes dele, rivalizou, no bom sentido, com Isaías no Antigo Testamento. Há um evangelho sublime nos salmos. Cave que encontrará o tesouro. E ninguém pode cavar por você.

Assim como o Inimigo se esforça para espalhar o erro, nos esforcemos para adquirir um tesouro inestimável, a sabedoria verdadeira, que conduz à vida.

A idade é de grande proveito, pela experiência e pratica. Não busque sabedoria em outro lugar além da Palavra, e caso beba de outras fontes, filtre pela palavra. A palavra é ou não é a única regra de fé e prática? Cuidado! Que a curiosidade não te leve ao orgulho, que a ambição não te leve a glória de si nem a heresia. Temor, simplicidade e humildade sejam teus guias. Lembre-se, nossos pés são fracos e os caminhos tortuosos e escorregadios.

Deus deu rica sabedoria a Davi que transmitiu a seu filho Salomão que pode dizer:

E era a sabedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. (1 Reis 4:30). E mesmo assim, Salomão cometeu muitos erros por falta de temor.

Tudo que precisamos está em Cristo. A sabedoria (sophia) e o conhecimento (gnosis), tudo que o homem busca está em Cristo. Em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência. (Colossenses 2:3). Cristo é o tesouro oculto de Deus.


É preciso andar neste Caminho, entrar por esta Porta e ver claramente com esta Luz. Jesus Cristo é o logos, a Palavra, o Grande Livro de sabedoria. Leia as bem-aventuranças e ouça sua voz com fé e amor. Siga seus passos nas Escrituras, sente-se aos seus pés, ouça sua voz. 

14.5.17

PRESBITERIANISMO NORDESTINO – Parte 1


PRESBITERIANISMO NORDESTINO – Parte 1
R.M. MENEZES

Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. 1 Coríntios 3:6

As primeiras sementes do protestantismo cristão no Brasil derivam de franceses e holandeses, os precursores da semente evangélica em nossa terra. Sementes sufocadas mas com o poder do Evangelho dentro delas.

Em 1555 os cristãos franceses huguenotes desembarcaram no Rio de Janeiro, período curto, até 1567, após forte oposição portuguesa com recuos e martírios. Havia uma intenção de criar uma colônia francesa na Baia de Guanabara, Rio de Janeiro. E o protestantismo calvinista apesar de não ter sido estabelecido nesta ocasião, missionários como Jean de Bourdel, Matthieu Verneuil e Pierre Bourdon deixaram por escrito a primeira confissão de fé da América e foram mortos por sua fé. Este precioso documento é conhecido como a Confissão de Fé de Guanabara.

Em 1637 temos a presença holandesa com Mauricio de Nassau no Brasil. Os holandeses calvinistas em Pernambuco implantaram todo um sistema eclesiástico com pastores, presbíteros, diáconos, membros, presbitério e sínodo. Prenunciava algo futuro, que Deus não deixaria de levar seu Evangelho em todos os lugares da terra. A ocupação holandesa no Nordeste do Brasil (1630-1652) sofreu dura oposição do romanismo colonial e os holandeses foram expulsos do Brasil. Mas o protestantismo retornaria com outros missionários. A semente do Evangelho deixou sua marca na terra.

Podemos resumir essas duas tentativas como duas fases de introdução incompleta do protestantismo no Brasil.

O século XIX é de particular destaque de maior semeadura e irrigação com os trabalhos missionários congregacionais e presbiterianos. Nesse século citado, nos EUA, por razões missionárias os presbiterianos e congregacionais uniram-se e formaram um acordo de intercâmbio de pastores entre as duas denominações. Esta união resultou em associações religiosas como a União Americana de Escolas Dominicais, a Sociedade Bíblica Americana, a Sociedade Americana de Educação e a Sociedade de Missões Estrangeiras.

Em 1836, vale destacar, antes da terceira (ou quarta) fase de evangelização protestante, chegou ao Rio de Janeiro, muito antes de Kalley, o missionário metodista R. Justus Sapaulding – o trabalho metodista oficialmente só vingou 20 anos depois da rápida presença do missionário Sapaulding (seis anos, apenas, tempo esse que se estende de 1836 a 1841). Spaulding, Murdy e Kidder, três missionários metodistas no Brasil fizeram um brilhante trabalho de distribuição de Bíblias. Há poucos relatos desse período metodista, mas se sabe que em 1864 a Igreja Católica proibiu a distribuição de Bíblias em Maceió e em 1865 também houve proibição de Bíblias na cidade de Escada-PE. Em 1867 já havia uma grande polêmica sobre “Bíblias falsas” e publicações católicas romanas combatendo a distribuição de Bíblias. Essa característica protestante de distribuição de Bíblias é um fato que merece destaque.

Em 1855 chega ao Rio de Janeiro o missionário congregacional escocês, Robert Reid Kalley. Missionário que realizou um importante trabalho de plantação de igrejas e em 1879 recebeu apoio da Inglaterra com a chegada do Rev. Fanstone. Este projeto missionário nascido no Rio de Janeiro irradiou-se para Pernambuco com o diácono congregacional Manoel José da Silva Viana. A primeira igreja congregacional de Recife e do Nordeste se chama Pernambucana (1873). Merece um estudo a parte.

Os primeiros missionários presbiterianos ao Brasil são oriundos da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA). Fundaram igrejas, seminários e colégios. Segundo o professor Alderi Souza de Matos, --:
“Os obreiros da PCUS foram os pioneiros presbiterianos no nordeste e norte do Brasil (de Alagoas até a Amazônia). Os principais foram John Rockwell Smith, fundador da igreja do Recife (1878); DeLacey Wardlaw, pioneiro em Fortaleza; e o Dr. George W. Butler, o “médico amado” de Pernambuco. O mais conhecido dentre os primeiros pastores brasileiros do nordeste foi o Rev. Belmiro de Araújo César, patriarca de uma grande família presbiteriana. Enquanto isso, os missionários da Igreja do norte dos Estados Unidos, auxiliados por novos colegas, davam continuidade ao seu trabalho. Seus principais campos eram Bahia e Sergipe, onde atuou, além de Schneider e Blackford, o Rev. John Benjamin Kolb”.

1859 – O ano marcante da chegada do primeiro missionário presbiteriano no Brasil:

Em 1859 a missão presbiteriana envia ao Brasil, S. G. Simonton, que desembarca no Rio de Janeiro. Em 1862 é organizada a primeira igreja presbiteriana do Brasil no Rio.

1873 – O marco do primeiro missionário presbiteriano no Nordeste do Brasil:

Em 1873 desembarca em Pernambuco o Rev. John Rockwell Smith, o qual exerceu um abençoado ministério de 1873 a 1892. O Rev. Smith visitou todas as principais cidades do Nordeste brasileiro. Organizou além da Igreja de Recife (1878), a de João Pessoa-PB em 1884 e a de Maceió em 1887.

Ainda em 1873 chega ao Recife o Rev. John Boyle e neste mesmo ano inaugura uma congregação presbiteriana na mesma cidade. Em 1875 o missionário Boyle vai para Campinas-SP e o Rev. Lecont vem para auxiliar Smith.

A partir de 1874 acontece a primeira expansão missionária presbiteriana de Pernambuco em direção a Maceió-Al e Pilar-Al. Havia nesse tempo muitos perigos de perseguição violenta de católicos romanos, de assaltos e apedrejamento.

Em 1875 o Rev. Smith visita Fortaleza-Ce e São Luiz-MA. Neste mesmo ano fundou um jornal, o primeiro jornal evangélico no Nordeste do Brasil.

Em 1877 houve a grande seca no Nordeste. Entre 1887 e 1879, um obreiro presbiteriano paraibano foi perseguido e martirizado. Sr. Filadelfo de Souza teve sua casa assaltada por um grupo armado, após este fato sua esposa enlouqueceu e morreu.

1878 – Organização da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife.

Em 1878 – Ano marcante para o presbiterianismo nordestino. O Rev. Smith organizou a Primeira Igreja Presbiteriana do Recife, ministrada pelo Rev. Blackford.

Havia na fundação da Igreja Presbiteriana de Recife três ministros brasileiros: Rev. João batista Lima, nascido em Porto Calvo-AL, Rev. Belmiro de Araújo Cesar, natural de Goiana-PE e o Rev. José Primênio, natural de Brejo da Madre de Deus-PE.

O Rev. Belmiro de Araújo Cesar, também jornalista, tornou-se professor de Inglês, Grego e Geografia.

Em 1878 fundam-se os trabalhos presbiterianos em Nazaré da Mata-PE e Goiana-PE.

Em 1879 o Rev. Smith era combatido diretamente de Portugal por meio de jornais e livros.

Ainda em 1879 houve um fato lamentável, outro martírio, próximo a cidade de Caruaru-PE, local próximo a São Bento do Uma-PE, a vítima foi o presbiteriano Jose Antônio dos Anjos (ou Antos).

Em 1880 chega reforço missionário ao Recife, o Rev. B. F. Thompson, recém-ordenado em 1879, e após sua chegada em Recife viveu apenas dois meses, acometido de uma febre tropical, possivelmente. Uma grande tristeza abateu o trabalho missionário em campo pernambucano.

Ainda no mesmo ano, em 1880, chega ao Recife o Rev. Lacy Wardlam. Em 1882 realiza missões no Ceará e em Goiana-Pe, nesta cidade é hostilizado por moradores, porém um juiz municipal acalmou a situação. Sempre havia o perigo de morte para os missionários protestantes.

Em 1883 havia cultos em vários locais, como Itamaracá-PE, Pão de Açúcar-AL, Penedo-AL, mas todos locais com grande hostilidade católica romana. 1887 é fundada a Igreja em Maceió-AL e também em Pão de Açúcar-AL.

1888 é um ano marcante, ano de fundação oficial do Presbitério de Pernambuco, separando-se dos Concílios Americanos, Sul, Norte e Sínodo de Baltimore.

A partir de 1888 passam a constituir quatro presbitérios:

1.            Rio de Janeiro.
2.            Pernambuco.
3.            São Paulo.
4.            Oeste de Minas Gerais.

1889 o Presbitério de Pernambuco ordena dois ministros, o Rev. W. C. Poter, americano, e Rev. Juventino Marinho, pernambucano de Goiana. Ambos treinados pelo Rev. Smith.

1894 o Rev. Butler chega a Garanhuns-PE e dá apoio em Canhotinho-PE. Em 1895 quinze pessoas são convertidas em Garanhuns. E é realizada a primeira Santa Ceia nesta cidade.

Em 1888 só havia três presbitérios: Pernambuco, Rio de Janeiro e Campinas/Oeste de Minas Gerais. Este último presbitério posteriormente dividiu-se e organizou-se em presbitério de São Paulo e presbitério Oeste de Minas Gerais.

O presbitério de [Norte] Pernambuco abrangia uma grande área interestadual compreendia Recife, Paraíba, Rio Grande do Norte, Pará, Fortaleza até o Amazonas. E o presbitério Sul de Pernambuco cingia o Agreste de Pernambuco, e Alagoas até Paulo Afonso na Bahia.

Igrejas organizadas por missionários presbiterianos antes de 1888, antes da formação oficial dos presbitérios:

1.            Paraíba.
2.            Mossoró-RN.
3.            Fortaleza-CE
4.            Garanhuns-PE
5.            Pernambucana – 1879
6.            Recife – 1878
7.            Goiana-PE – 1886
8.            Laranjeiras-SE – 1884
9.            Nazaré-PE – 1887
10.          Paulo Afonso-BA – 1886
11.          Maceió – 1887
12.          Pão de Açúcar-AL – 1888

Igrejas organizadas depois da formação do presbitério de Pernambuco antes de 1928:

1.            Palmares – 1903
2.            Catende – 1926
3.            Garanhuns – 1900
4.            Águas Belas – 1922
5.            Macéio – 1908 (reorganizada)
6.            Canhotinho – 1902
7.            Gameleira – 1914
8.           Caruaru – 1927

A sede organizacional do presbitério sul de Pernambuco situava-se nos Estados Unidos, o Sínodo de Baltimore, posto missionário de um importante e desconhecido homem, Rev. John Leigton Wilson, missionário americano que serviu por 14 anos na África e foi secretário da Junta de Missões Presbiterianas Americana. Foi este homem que enviou para o Brasil três missionários: Simonton, Blackford e Scheineider. Cujo trabalho missionário formou a Igreja Presbiteriana do Brasil.

**
Referência:
Presbitério Sul de Pernambuco, História do Presbiterianismo no Nordeste Brasileiro, Rev. Elias Sabino de Oliveira.
O Presbiterianismo no Nordeste do Brasil (II), Claúdio Henrique Albuquerque, Vox Reformata, Publicação do SPN. 2012, nº 2, Vol. I.




30.4.17

A TOLERÂNCIA RELIGIOSA NA PERSPECTIVA REFORMADA


A TOLERÂNCIA RELIGIOSA NA PERSPECTIVA REFORMADA
R.M.MENEZES

Lucas 9.49, Números 11.24-29, Marcos 9.38-41, Mateus 18.1-5, Mateus 12.30.

E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco. E Jesus lhe disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós. (Lucas 9.49)

Recentemente Suprema Corte da Rússia baniu os Testemunhas de Jeová do país. Segundo a decisão, a denominação foi considerada uma "organização extremista", que agora terá de entregar todas as suas propriedades para o Estado - são pelo menos 395 templos espalhados pelo território russo. Qualquer tipo de prática dessa religião a partir de agora também será criminalizada. Segundo notícias da BBC, o procurador de Justiça Svetlana Borisova, um dos autores da ação, disse à agência de notícias Interfazas que as Testemunhas de Jeová representam "uma ameaça aos direitos dos cidadãos, à ordem pública e à segurança pública". Borisova também afirmou que a oposição dos adeptos dessa religião a se submeterem a transfusões de sangue viola as leis russas de saúde. Representantes das Testemunhas de Jeová já disseram que tentarão apelar da decisão junto à Corte Europeia dos Direitos Humanos. A religião foi fundada nos Estados Unidos no fim do século 19 e, durante o regime de Josef Stálin na União Soviética, foi proibida por lá - milhares de seguidores acabaram enviados para a Sibéria à época. Seus integrantes são conhecidos por sua pregação de porta em porta e pela rejeição ao serviço militar e a transfusões de sangue. – Fonte BBC.

Este exemplo da Rússia em 2017 demonstra bem que em pleno século XXI estamos ainda ajustando o equilíbrio religioso em muitos lugares, e religião sempre será um tema espinhoso social. Sejam por razões políticas, econômicas, sociais ou religiosas. Sempre teremos conflitos e tensões em diversos graus, seja numa praça em Jerusalém, Paris, São Paulo, Recife, seja na Internet, outro campo minado de opiniões plurais. É um tema amplo.

NECESSIDADE DE UM EQUILÍBRIO RAZOÁVEL

É possível encontrar um equilíbrio entre um tipo de zelo intolerante e uma tolerância às heresias? O que é heresia? A palavra “heresia” deriva do grego que significa “escolha”. O individuo sempre escolhe uma escola de pensamento, uma cosmovisão. No latim a palavra grega “háiresis” transformou-se em “secta”, de onde retiramos a palavra “seita”. Etimologicamente não são palavras ruins e negativas, mas desde que o Cristianismo tumultuou o judaísmo em seu berço no século I, “seita” tem uma conotação negativa (Cf. Atos 24.5; 1Co 11.19; Gl 5.20; 1 Pe 1.1-2).

De certa forma, todo individuo ou grupo religioso é herético, pois há uma “escolha”, há sempre uma opção credal. Porém a aplicação comum é que “herético” é sempre o outro. O mesmo preconceito que o nascente Cristianismo sofreu do judaísmo, hoje o próprio Cristianismo aplica a outras religiões. Sempre houve e sempre haverá níveis de intolerância entre as religiões, de um modo ou de outro. Não há nem neutralidade nem unidade perfeita. E nunca haverá. Por definição podemos resumir heresia como algo que fere a ortodoxia aceita por um grupo confessional.

Jerusalém, de certo modo é um exemplo de tolerância religiosa, apesar do ambiente sempre tenso. Há nela várias denominações cristãs, judaicas e muçulmanas. Mesmo entre cristãos, judeus e muçulmanos, internamente, não há unidade de fé. Há cristão de todo tipo, os judeus não pensam igualmente nem os muçulmanos são monolíticos em suas crenças. Como na politica há esquerda-centro-direita (e ainda, extrema esquerda e extrema direita), nas religiões há desde os mais liberais aos ortodoxos. É um contrassenso, mas há uma variedade de ortodoxia.

Em matéria de religião há sempre os mais pacíficos e os mais radicais e politizados. Sempre haverá duas faces da mesma moeda em toda religião. O ponto em questão é como conviver com outras religiões pacificamente ou civilizadamente? Excetuando o extremismo religioso assassino ou suicida, é possível que numa mesma rua haja uma mesquita, uma igreja e uma sinagoga, até um templo budista. Se esta vizinhança consegue viver sem dar cusparada uma na outra, qualquer religião pode conviver civilizadamente.

POLÍTICA, FUTEBOL E RELIGIÃO

Dizem que política, futebol e religião não se discutem! Mas a política e o futebol têm muito a ensinar à religião. Primeiro, podemos ser do partido azul e não gostar nenhum pouco do partido vermelho, mas se o partidarismo não for IMPOSTO, se há eleições democráticas e o partido A ou B venceu, cabe a minoria aceitar e viver pacificamente, democraticamente, e nas próximas eleições tentar reverter o resultado e sempre que necessário, via de regra, buscar os meios legais de reivindicar alguma opinião contrária. No futebol as regras são mais claras, no estádio há duas torcidas, nada amistosas, mas têm que aceitarem o resultado, pois sempre um sairá em vantagem. Podemos ter amigos que pensem diferente em política e futebol? Sim. E em religião? Sim.

Uma guerra, que é a situação extrema de rompimento de qualquer tratado social amigável, ainda é possível encontrar gestos de tolerância, direitos humanitários internacionais, a exemplo da Convenção de Genebra. Mesmo numa guerra deve haver tratamento humano de prisioneiros, proibição de tortura, maus tratos e respeito a religião dos prisioneiros, não atacar hospitais civis, liberar o trânsito para transporte de medicamentos e feridos etc.  Apesar dos males de uma guerra, tudo isso é um tipo de avanço da civilização, embora grupos extremistas, em nome de uma religião realizam decapitações de prisioneiros como propaganda ideológica ou por razões políticas e territoriais se faz uso de armas químicas.

Obviamente, que todo contrato social, seja político, futebolístico ou religioso sempre poderá ser quebrado por algum tipo de extremismo. É o caso de vândalos em protestos políticos, o hooliganismo no futebol e suicidas religiosos. Todos os casos extremos de uma cultura de intolerância que podem se iniciar com um indivíduo ou grupos. Como uma pequena fagulha pode incendiar uma floresta. O mundo não é instável, ou melhor, seus habitantes.

Num ambiente de trabalho ou estudantil, vamos conviver com uma grande diversidade de pensamentos religiosos. Nas redes sociais ainda mais. Hoje as redes sociais se transformaram em arena de discussões religiosas acaloradas e muitas vezes banais. Cada um deve ser regido por sua consciência. Tratando-se de cristãos, biblicamente a consciência deve ser governada pelas Escrituras Sagradas. Acontecerá o mesmo com outras religiões e seus livros correlatos que direcionam sua profissão credal. Ninguém pode impor sua religião a ninguém, mas nem todos respeitam este direito.

Há uma frase atribuída a Agostinho, que diz: “Nas coisas essenciais, a unidade; nas coisas não essenciais, a liberdade; em todas as coisas, a caridade”. Caridade ou amor. O problema é que na prática não há nem unidade nem liberdade nem caridade. A raiz da palavra "tolerância" significa "suportar". Hoje esta palavra tem um sentido amplo de “aceitar as diferenças” de uma sociedade plural, a não violência, a prática da convivência entre interculturas. Mas a natureza de intolerância é forte na natureza humana.

John Locke escreveu sobre a tolerância religiosa em sua famosa Carta (1689) sobre o tema em questão, e a sua base do entendimento da tolerância é “o respeito pelo outro e que cada um faça a sua parte”. Segundo Locke, a igreja é uma sociedade livre de pessoas que se reúnem por iniciativa própria para um culto público. Organizam-se livremente. Até aí tudo bem, o problema se instala quando um grupo que professa uma fé, além de não aceitar a convivência interreligiosa, discrimina ou ataca ou impõe sua crença a outros grupos. A tese de Locke é razoável socialmente, mas na prática há sempre tensões e disputas, e na história muitas diásporas, perseguições e derramamento de sangue por causa de religião.

Voluntariedade e civilidade podem ser boas características para uma convivência interreligiosa pacífica. Como escreveu Locke, que cada um cumpra a sua parte. O pensamento de Locke é que quando um indivíduo professa uma religião diferente de outra pessoa, não é herege, mas protestante. Herege seria alguém não professar a mesma fé no seio da mesma religião. Na visão de Locke o aspecto pragmático/social não é provar se a religião A ou B é a verdade, mas se é possível conviver sem agressão mútua. O que vemos na história é exatamente o contrário, é só examinar as guerras religiosas.

Na atualidade, principalmente no Ocidente, não há uma imposição religiosa sobre a sociedade, mesmo que alguém não goste de outra religião, em geral há uma atitude de não forçar ninguém a crer. Um exemplo embrionário, não perfeito nem utópico aconteceu no Governo de Mauricio de Nassau em Pernambuco entre 1637-1644. Desde 1630 os holandeses dominaram Pernambuco e permaneceram na região até 1654, quando foram expulsos. Uma das características do Governo Nassau foi estabelecer a liberdade religiosa aos cristãos. Especialmente liberdade religiosa aos judeus, Recife era um tipo de “Jerusalém colonial” e uma “babel cultural”. A capital pernambucana nesse período holandês foi a única cidade do mundo onde conviviam judeus sefarditas, católicos e calvinistas. Fato histórico. Não era um mar de rosas, mas não se matavam.

Era um tipo de tolerantismo ou Estado multirreligioso, cada um na sua lei (não era um estado perfeito de paz, pois havia insatisfação social por parte de católicos e calvinistas entre si e contra os judeus por razões econômicas e religiosas). E este contexto deve ser analisado à luz da perseguição católica romana em seus domínios. Hoje é aceitável tal convivência, mas é importante entender o contexto maior da Inquisição Católica Romana que permeou a Idade Média e Moderna.

A Inquisição remonta o século XIII, em 1233, chamada de Inquisição Medieval até o século XIV, e a Moderna a partir do século XIV, com períodos mais enfáticos, como 1478 na Espanha, e século XVI, em 1536, a Inquisição implantada em Portugal.

A exploração econômica colonial e social, como a comercialização de escravos nesse período holandês em Pernambuco é um assunto a parte. Faz parte da intolerância, mas não da intolerância religiosa em si. A congregação Kahal Kadosh Zur Israel em Recife-PE foi a primeira sinagoga fundada nas Américas. Algo inadmissível em colônia portuguesa católica. E mesmo com toda intolerância da época conviveram em Estado multirreligioso.

LUCAS 9

No Evangelho de Lucas há um relato de zelo intolerante praticado por Tiago e João.

E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez? -- Lucas 9.54.

Uma demonstração clara de zelo intolerante. Não por acaso que João era conhecido como o "Filho do Trovão".

Matthew Henry sobre esta passagem de Lucas 9.43-50 disse:

"Se já existiu uma sociedade de cristãos neste mundo que pudesse com razão silenciar aqueles que não eram de sua comunhão, estes eram os doze apóstolos" Mas Cristo advertiu que não fizessem isso.

A primeira lição extraída é que, há muitos cristãos que não necessariamente seguem conosco, mas que são aceitos por Cristo. A base da salvação sempre foi e sempre será a eleição.

Mas até que ponto devemos ser tolerantes com quem não é do nosso meio? Quem deu mais crias de seitas, a intolerância ou tolerância? São perguntas honestas que devemos fazer. Como lidar com isso em nosso cotidiano?

Alguém já disse que a tolerância fez muitas seitas, mas é verdade também que a intolerância também. O equilíbrio se faz altamente necessário. Um grupo fechado de fanáticos pode derramar muito sangue em nome de Jesus ou outro nome. Ninguém está livre do orgulho eclesiástico ou teológico, e assim nascem as seitas ou heresias, como muitos desigrejados inimigos da instituição eclesiástica, inimigos da Palavra de Deus e inimigo da unidade visível da igreja. Unidade visível da Igreja de Cristo deve ser buscada, embora nunca conquistada plenamente, até que o Senhor retorne.

Os discípulos nessa passagem de Lucas 9 foram zelosos e intolerantes. Assim como foi Josué contra Eldade e Medade, e Moisés deu uma nobre resposta (cf Nm 11.29). O zelo de Josué, assim como o zelo de Tiago e João foram tolhidos por exortação. É da natureza humana agir impetuosamente como Saulo fazia em perseguição cruel aos cristãos, tudo em nome de Deus. João ao mesmo tempo era conhecido como o discípulo do amor e o filho do trovão.

Um bom antídoto para não cairmos em excessos é reconhecer que o nome de Jesus não é propriedade de nenhum grupo religioso. Jesus Cristo tem um povo seu, propriedade exclusiva, Ele tem sua Igreja, eleitos de todas as gerações. Não será seu ministério, esforço, obras, missões, zelo, títulos, doações, conhecimento que farão de você um filho, filha, escolhido, escolhida de Deus.

Com certeza as ovelhas conhecem a voz do seu pastor, sem engano. E buscarão a santificação, o reconhecimento que Cristo é tudo que importa, sendo o próprio Deus; buscarão a intimidade pessoal com Cristo e a glória de Deus. Conhecer o Senhor com profundidade, com senso de humilhação, discernimento, paz e todo fruto do Espírito. O Espírito de Deus sopra onde quer e não se limita somente a um grupo seleto, o vento sopra onde quer.

O zelo de Tiago, João e Josué, nas passagens citadas demonstram que devemos ter prudência para não rejeitar quem o Senhor não rejeitou. Ter este discernimento não significa aceitar tudo e a todos em nome da tolerância. A tolerância não deve ser sinônimo de ignorância. O Espírito Santo ajuda em nossa fraqueza, Ele dá mestres piedosos à Igreja, discernimento da verdade e da mentira. E toda crença falsa deve ser rejeitada. Deus não nos pede que toleremos a mentira. Cristo é a Verdade. O Senhor deu sabedoria para expor e destruir a mentira, mas não fazemos isso com espada de metal nem bombas, não por força nem por violência, mas com armas espirituais.

As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo (2 Coríntios 10.4,5).

A paz civil é importante para que o Reino de Deus se expanda sem muitos obstáculos. Devemos orar pelas autoridades para que possamos encontrar terreno favorável para semear o Reino de Deus. Ambientes muito hostis não são ideais para o avanço do Reino, quando há perseguição cruel, a necessidade básica é sobreviver. Quando o cenário é de relativa paz e segurança das igrejas locais, o Evangelho se espalha com mais dinâmica e força. Desde Atos até os dias atuais é assim. As igrejas locais necessitam de certa unidade que traga glória ao Senhor e dê frutos. A paz, se possível, mas a verdade, a qualquer preço, como disse Lutero.

Independente de uma unidade confessional desejada, os cristãos podem se unir para buscarem viver num ambiente de mais justiça com base nos grandes princípios da fé cristã.

Os cristãos protestantes reformados, por exemplo, nunca serão alinhados com papistas ou arminianos, mas deve haver tolerância religiosa com prudência. Nunca devemos negar nossa posição e doutrina, seja contra antinomianos e desigrejados.

Precisamos de discernimento para filtrar verdades de mentiras e batalhar pela verdade, pela justiça, pelo equilíbrio necessário. Podemos não concordar com tudo que um teólogo ensina, pois todos estão sujeitos a erros. Mas onde houver a verdade que seja honrada como verdade de Deus. Tomemos cuidado com os erros, alguns erros são tão grandes que somente um cego pode esbarrar, mas há pequenos erros, como pequenas pedras, onde a desatenção poderá nos fazer tropeçar. Alguém já disse, talvez da área de física: “Um erro da espessura de um fio de cabelo afasta-nos cem quilômetros do alvo”.

A ONU (Organização das Nações Unidas) tem um documento de 1995, chamado de “Declaração de Princípios sobre a Tolerância”, o qual ERRONEAMENTE afirma: “A tolerância (...) envolve a rejeição do dogmatismo e do absolutismo”. Total absurdo! Anátema! Porque o documento assevera que uma pessoa não pode afirmar que determinado dogma seja correto ou absoluto. Exemplo: O Senhor Jesus Cristo é o único Caminho. A ONU afirmar que se tem que rejeitar o dogmatismo não é um tanto dogmático? Como bem observou D. A. Carson. Perceba que não há neutralidade.

ENTREVISTAS

Selecionei algumas frases de teólogos e anônimos que podemos montar semelhante a um Quiz, em formato de pergunta e resposta para buscarmos mais ferramentas de discernimento.

Entrevista 1:
P. – Sr. George Hutcheson, o senhor não acha que ser mais tolerante ao erro é um caminho mais excelente para preservar a unidade mínima de uma igreja?
R. -- A divisão é melhor do que a concordância no erro.

Entrevista 2:
P. – O que vale é o amor, a boa intenção, a sinceridade na pregação, não é?
R. -- Erro no púlpito é como fogo no monte de palha.  (Anônimo).

Entrevista 3:
P. – Sr. John MacArthur, o que o senhor acha da tolerância?
R. -- A heresia vem montada nos lombos da tolerância.

Entrevista 4:
P. – Sr. Martyn Lloyd-Jones, estaremos seguros na verdade estudando os grandes reformadores e estaremos imunes a qualquer erro?
R. -- Não devemos engolir automaticamente tudo o que lemos nos livros, ainda que dos maiores homens. Devemos examinar tudo.

Entrevista 5:
P. – Sr. João Calvino, o quanto podemos ignorar; relevar em nome da moderação, tolerância e unidade da igreja?
R. -- Há algo ilusório em nome da moderação, e a tolerância é uma qualidade que tem uma bela aparência, e parece digna de louvor; mas a regra que devemos observar a todo preço é, nunca suportar pacientemente que o nome santo de Deus seja assaltado com blasfema ímpia – que sua verdade eterna seja suprimida pelas mentiras do diabo – que Cristo seja insultado, seus santos mistérios poluídos, almas infelizes cruelmente assassinadas, nem deixar a Igreja padecer em extremo sob o efeito de uma ferida mortal. Isso não seria mansidão, mas indiferença sobre coisas que deveriam vir em primeiro lugar.

Entrevista 6:
P. – Sr. David J. Engelsma, vale a pena perder a unidade e a paz por causa de DOUTRINA?
R. -- O povo protestante, tolerando a falsa doutrina e aderindo a instituições apóstatas, não entende que seus ancestrais abriram mão de tudo – por DOUTRINA. Não entendem que homens de carne e sangue como eles uma vez desafiaram tudo e arriscaram transformar o mundo num tumulto – por DOUTRINA. Eles não entendem mais as palavras do poderoso hino de Lutero: “Se temos de perder, famílias, bens, poder. Embora a vida vá” – por DOUTRINA.

Entrevista 7:
P. – Sr. D. A. Carson, até que ponto a razão e civilidade devem apoiar a tolerância?
R. -- Pode existir a existência da “intolerância da tolerância”, quando se é tão aberto a tolerância de tudo e aceita tudo como normal que não se admite em hipótese nenhuma a intolerância. Não admitir em hipótese nenhuma a intolerância é ser intolerante. O politicamente correto é um tipo de “intolerância da tolerância”.

CONCLUSÃO

Nenhum cristão verdadeiro pode viver com várias opiniões das quais não concorda ou achar que toda opinião é válida. Em seu meio, entre seus pares, todos vivendo sob a mesma confissão de fé, em comunhão, não há como um membro tolerar um ensino de outro membro que irá contra a confissão de fé da sua igreja. Se alguém discorda, é mais prudente que procure outro lugar para congregar. Mas este mesmo membro pode defender com justiça o direito de outras religiões existirem. Ou seja, uma igreja pode ser vizinha de uma mesquita ou de uma sinagoga, desde que ambas se respeitem. E isto não significa que o culto na igreja será igual ao da mesquita ou da sinagoga. E o membro cristão vai continuar confessando que o Senhor Jesus Cristo é o único Caminho, a Verdade e a Vida. Este é o limite da tolerância religiosa.

O Senhor Jesus Cristo um dia voltará e todo caos religioso será lançado fora. Mas enquanto o Senhor não retornar, nós teremos aflições, perseguições, confrontos, tristezas, mas precisamos dessa tolerância para haja paz civil, ordem social em um mundo instável. A unidade da igreja visível é a grande luta diária de cada igreja, deve ser sempre buscada, pois é da vontade de Deus revelada em sua Palavra. Mas esta unidade não deve impor a fé forçada a ninguém.

É preciso entender socialmente que qualquer religião que não fira as leis do seu país tem direito à liberdade e proselitismo. É uma tolerância legal, que os cristãos devem defender, pois a tolerância legal e social faz parte da expansão da Igreja. E a Igreja não converte ninguém pela força. Há uma frase atribuída a Voltaire que diz: “Não concordo com uma só palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Este é o modo de operação da tolerância social cristã.

Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Mateus 12:30